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Princípios básicos do escapamento

Autor: Adriano R. Passarelli

O escapamento é o órgão regulador do relógio mecânico, ou seja, é ele que regula a passagem do tempo, controlando a velocidade com que a corda do relógio é desenrolada, por meio de ciclos de travamento e liberação (escapamento, daí o nome). Imagine, por exemplo, que o relógio não tivesse o escapamento, mas apenas as engrenagens girando diretamente os ponteiros: a corda se desenrolaria em segundos. Aí é que entra em cena o escapamento, travando e liberando essa força lentamente, controlando sua velocidade de modo conhecido e calculado matematicamente, para que tudo se resulte na velocidade certa de rotação dos ponteiros. É o escapamento e seus ciclos de liberação e travamento que produzem o característico “tique-taque” do relógio mecânico.


Por toda história já existiram inúmeros sistemas diferentes de escapamento, muitos deles extintos há quase um século. Trataremos aqui do escapamento de âncora suíço, também chamado de escapamento de âncora de rubis, usado em praticamente 99% dos relógios mecânicos de pulso. A parcela restante é composta pelos já extintos escapamentos pin-lever, conhecidos pelo baixo custo de produção, equipando relógios de baixo preço, comumente (e em alguns casos, erroneamente) confundidos com baixa qualidade. Essa parcela restante também é composta por alguns tipos diferentes de escapamento usados na atualidade, como o Co-axial (que será tratado na próxima edição), hoje exclusivo da Omega, e o escapamento Dual Direct, da Ulysse Nardin, para citar alguns.

O escapamento é um dos órgãos mais importantes, senão o mais importante do relógio. É composto por elementos delicados, que exigem grande precisão no projeto e na fabricação, assim como ajustes minuciosos. Além disso, a função principal do relógio, que é marcar as horas, é totalmente controlada pelo escapamento. Isso significa que a rotação dos ponteiros, e logo, a precisão com que as horas são mostradas, dependem quase que exclusivamente do escapamento. Evidente que toda peça tem sua parcela de responsabilidade, e quase qualquer peça defeituosa no trem de rodagem, ou relacionada a ele, pode alterar a precisão do relógio. Porém, mesmo que todo o restante esteja perfeito, um escapamento problemático pode prejudicar a precisão de modo inaceitável. Por isso o escapamento é um órgão delicado e que necessita de ajustes precisos para que seu funcionamento seja satisfatório.


O escapamento de âncora suíço: como funciona?


O escapamento de âncora é formado por alguns elementos básicos, que são: o balanço, a espiral (também conhecida como mola-cabelo ou apenas cabelo), a âncora e a roda de escape. Mas há ainda outros elementos menores, nem por isso menos importantes, que cumprem papel fundamental no funcionamento e na precisão do escapamento. Simplificadamente, a roda de escape é a responsável por receber a força de todo o trem de rodagem e transmiti-la ao escapamento, agindo em conjunto com a âncora para travar e liberar a força e para dar impulso ao balanço para que seu movimento seja perpetuado. Os dentes da roda de escape são desenhados para exercer duas funções: dar impulso à âncora (que será transmitido ao balanço) e ser bloqueados pela âncora. O conjunto de balanço e espiral, por sua vez, tem como função controlar o ritmo de travamento e liberação, movendo a âncora de um lado para o outro, mantendo-a parada durante o bloqueio e recebendo impulso dela num determinado período do seu giro. A espiral é que permite o movimento de vaivém do balanço: ele recebe impulso em um sentido, a espiral o faz voltar para liberar a âncora e receber impulso no outro sentido, voltando e liberando novamente, e assim completa-se o ciclo.




Dessa maneira, o controle da passagem do tempo (como em praticamente todo tipo de escapamento “portátil”, ou seja, para relógios de bolso ou de pulso) depende do movimento oscilatório do balanço. Para que essa oscilação se dê no tempo correto, é fundamental uma correta relação entre o comprimento útil da espiral e o momento de inércia do balanço. A freqüência de oscilação é conhecida e é calculada. A freqüência teórica é obtida pela relação de redução entre as engrenagens (através do número de dentes das rodas e dos pinhões), desde o tambor de corda até a roda de escape e, por fim, do comprimento da espiral e o momento de inércia do balanço, sendo estes últimos passíveis de alteração, para que permitam uma regulagem fina da precisão de um relógio. Isso porque existem tantas variáveis que afetam o escapamento que a freqüência teórica dificilmente é atingida com total precisão: é no escapamento que ocorrem os erros e desvios de marcha. Não fosse assim, o relógio dispensaria qualquer ajuste ou regulagem e sua precisão seria absoluta. Os ajustes e regulagens são feitos para compensar esses erros e deixar a freqüência de oscilação o mais próxima possível da teórica. Quanto mais próxima, melhor a precisão.



A freqüência normalmente é mensurada em bph, que significa beats per hour ou “batidas por hora” (eventualmente usa-se vph, “vibrações por hora”). Menos comumente usa-se bps, que significa beats per second ou “batidas por segundo”. Cada batida, nesses casos, é uma semi-oscilação do sistema, ou seja, um “tique” ou um “taque” do relógio, enquanto o conjunto “tique-taque” é uma oscilação completa. O número de batidas por segundo é exatamente o número de “saltos” que o ponteiro dos segundos dá por segundo. A freqüência pode ainda ser expressa em hertz, porém, neste caso trata-se da oscilação completa (conjunto “tique + taque”). Logo, seu valor é metade do valor em bps. Por exemplo, um relógio de 28.800 bph possui 8 bps ou 4 Hz. As freqüências mais comuns são 18.000 bph (5 bps ou 2,5 Hz), 19.800 bph (5,5 bps ou 2,75 Hz), 21.600 bph (6 bps ou 3 Hz), 28.800 bph (8 bps ou 4 Hz) e 36.000 bph (10 bps ou 5 Hz).



Audemars Piguet calibre 2226, base JLC 889, balanço liso com
escapamento de espiral plana e regulador tradicional.


Em teoria, uma maior freqüência promove maior precisão. Isso porque cada eventual erro ou batida fora do tempo será mais diluída. Por exemplo, um relógio de 18.000 bph, ou seja, 5 bps: se ele falhar uma batida por segundo, a precisão será mais afetada do que num relógio de 10 bps, em que uma batida fora do tempo afetará menos a precisão. É importante deixar claro que isso é teoria, não significando que um relógio de maior freqüência terá obrigatoriamente maior precisão que outro de menor freqüência. Claro que em dois relógios equivalentes, o de maior freqüência poderá ser mais preciso, porém, a precisão depende de vários outros parâmetros de ajuste do escapamento, o que faz com que, na prática, isso não valha como referência para julgar a precisão nem qualidade de um calibre. As tolerâncias de precisão na fabricação das peças, a qualidade dos materiais e, principalmente, a qualidade do ajuste são fatores muito mais importantes, o que faz com que um movimento finíssimo, de alta-relojoaria, tenha precisão muito superior com 18.000 bph do que um movimento básico produzido aos milhares, sem nenhum ajuste, mas com 28.800 bph. Há ainda outro detalhe: escapamentos de maior freqüência fatalmente necessitam de tolerâncias mais rígidas na fabricação e no ajuste para que funcionem corretamente. Por isso um escapamento de alta freqüência feito com baixas tolerâncias provavelmente terá um desempenho pífio, se conseguir funcionar, em primeiro lugar.


Uma maior freqüência também implica maior desgaste. Por isso, 36.000 bph são praticamente um limite. Movimentos dessa freqüência não são comuns e requerem boa manutenção periódica, requerendo intervalos mais curtos entre revisões. Atualmente 28.800 bhp resultam numa boa equação entre durabilidade e precisão. Um escapamento de 28.800 bph executa 691.200 impulsos e bloqueios por dia, o que significa mais de um bilhão de “tiques” e “taques” num período de quatro anos. O enorme número de relógios com muitas décadas de funcionamento pleno, funcionando perfeitamente até hoje, apenas comprova a confiabilidade e a durabilidade do escapamento de âncora.


Apenas como curiosidade: muita gente considera os relógios mecânicos “imprecisos”, acostumados com os relógios a quartzo. Um dia possui 86.400 segundos e, sendo assim, um desvio de 30 segundos em um relógio significa um coeficiente de erro de apenas 0,035%, atingindo uma precisão de 99,965%. Considerando que bons relógios de pulso, mesmo com décadas de funcionamento, ainda oferecem precisão melhor que 15 segundos/dia, é uma façanha que um sistema mecânico, de geometria extremamente complexa, sujeito a tamanho esforço e a tantas variáveis, ainda consiga manter um desvio de marcha tão pequeno. Aliás, diga-se de passagem, a relação matemática entre a freqüência de oscilação e o desvio de marcha faz do relógio mecânico teoricamente mais preciso que o relógio a quartzo comum. A marcha absoluta é inferior no relógio mecânico, mas a porcentagem de erros por ciclo é menor. Basta comparar: um relógio a quartzo comum possui freqüência de 32.768 Hz e oferece precisão média de +/- 0,5 s/dia (15 segundos por mês), enquanto um relógio de pulso razoável possui freqüência de 3 Hz e oferece precisão de +/- 20s/dia.



A espiral e o balanço, em detalhes

Esses dois elementos podem ser tratados juntos, já que na prática atuam em conjunto, como uma peça única. As espirais usadas hoje são do tipo autocompensadoras, o que significa que são capazes de compensar o efeito da dilatação com a variação de temperatura. A espiral, sendo uma mola metálica, sofre muito com a dilatação causada por mudanças de temperatura, o que altera a sua característica elástica e principalmente seu comprimento, afetando bastante a marcha. Ainda no início do século XX, as espirais eram feitas de aço e muito susceptíveis às variações de temperatura. Para compensar essas variações no tamanho da espiral e na sua elasticidade, os balanços eram do tipo “bimetálicos partidos”. O aro do balanço era composto por dois aros unidos, um mais interno, outro mais externo, um de aço e outro de latão. Para que pudessem se dilatar corretamente, o aro era partido ao meio. Como o latão se dilata menos que o aço, conforme ocorria a mudança de temperatura, o aro se deformava mais para dentro ou mais para fora do seu centro, alterando o momento de inércia de maneira a compensar o efeito da dilatação da espiral.



Ainda no início do século XX, surgiram novas ligas com pequeno coeficiente de dilatação (Invar e Elinvar), que passaram a ser usadas nas espirais. Em pouco tempo surgiu uma liga especialmente desenvolvida para espirais, a Nivarox, que não apenas possuía um coeficiente de dilatação baixo, mas também podia autocompensar sua eventual dilatação usando um fenômeno chamado magnetostricção. Certos metais, como os que compõem a liga Nivarox (composta por ferro e níquel, adicionada de cromo, berílio, titânio e alumínio), possuem uma característica magnética interna que se anula e não se manifesta externamente como magnetismo. No entanto, esse magnetismo interno é alterado com a temperatura. Desse modo, o fenômeno da magnetostricção age alterando o magnetismo interno do metal e sua resistência, atuando de forma contrária à temperatura. Assim, com o aumento da temperatura, a espiral se torna mais rígida, compensando a eventual dilatação com o aumento de temperatura; do mesmo modo, com a queda da temperatura, a resistência da espiral diminui, compensando sua contração devido à menor temperatura. Sendo assim, o magnetismo interno compensa a dilatação ou contração térmica.

A espiral Nivarox também tem a vantagem de ser menos afetada pelo magnetismo e de ser inoxidável. Com sua adoção, as mudanças de temperatura passaram a não mais afetar seriamente a precisão e, portanto, os balanços não precisavam mais compensar esses efeitos, podendo ser inteiriços e de um único metal ou liga, e por isso chamados de monometálicos. Desde a década de 1940, o balanço monometálico e a espiral autocompensadora são padrão nos relógios de boa qualidade. Os balanços monometálicos normalmente são feitos de latão, níquel ou outros metais. Porém, os de melhor qualidade são elaborados com uma liga especial chamada Glucydur, composta por berílio e bronze. É uma liga estável, muito resistente mecanicamente (especialmente quanto à dureza) e com baixo coeficiente de dilatação. A combinação de uma espiral Nivarox com um balanço Glucydur elimina quase completamente o efeito da temperatura sobre a precisão do relógio.
Repare na ausência do regulador neste escapamento free-sprung
com sistema Giromax. Note os pesos excêntricos no aro do balanço.



Uma outra mudança ao longo do tempo ocorreu com a forma do balanço: antigamente usavam-se balanços parafusados ou rebitados, em que o balanceamento era feito ajustando-se esses parafusos ou retirando-se material dos rebites. O balanceamento perfeito do balanço é fundamental para a precisão do relógio. Um balanço desbalanceado será afetado pela gravidade, especialmente trabalhando na vertical. Já há várias décadas, a evolução da tecnologia de produção permitiu que o balanceamento fosse feito com mais precisão e de modo definitivo, possibilitando aos balanços serem lisos. Ainda hoje utiliza-se o tradicional balanço parafusado, porém, mais por questões estéticas ou por tradição do fabricante do que por motivos técnicos. Porém, por sua fabricação mais cara e pelo ajuste mais cuidadoso, só se encontra esse tipo de balanço em relógios mais finos. No quesito técnico, no entanto, seu uso dificilmente se justifica, tendo ambos os tipos o mesmo desempenho.




A espiral pode ser do tipo plana ou do tipo overcoil, também conhecida como “espiral de Breguet”, em homenagem ao seu inventor. A mais comum atualmente é a plana, cujas espiras residem todas no mesmo plano. Já a espiral de Breguet possui uma última espira que se enrola mais ao centro e acima de toda a espiral. Sua função é distribuir o peso da espiral sobre ela mesma, melhorando seu centro de gravidade e a performance posicional (entre as diferentes posições nas quais o relógio é usado). É considerada uma espiral nobre, encontrada em relógios mais finos. Seu ajuste é complexo, mas permite excelente comportamento da marcha do relógio. Hoje o processo de fabricação de espirais planas é muito bom, especialmente nas de alta qualidade, que se encontram em um nível de quase perfeição, possibilitando espirais perfeitamente planas, concêntricas, balanceadas e alinhadas, oferecendo excelente desempenho e praticamente se igualando às espirais de Breguet. A única desvantagem da espiral de Breguet é que sua aplicação requer maior altura do movimento, o que a torna inviável em movimentos de pequena espessura.


A espiral é fixada no eixo do balanço através do collet, e sua outra extremidade é fixada no piton, que se encaixa no porta-piton. Antigamente usava-se do tipo fixo, mas atualmente praticamente todos os fabricantes usam porta-piton móvel, para facilitar o ajuste correto da batida. Logo adiante do porta-piton existe o regulador. Nele há um pequeno pino (index) e o booth: a espiral passa entre esses dois elementos. Estes elementos (collet, piton e index) são fundamentais para o perfeito ajuste da precisão do relógio e seus detalhes serão tratados em outra oportunidade.


Detalhe do escapamento de um IWC calibre 5000. A letra “A” indica o
“porta-piton”. A letra “B” é o regulador, e “C” é o parafuso que move
o regulador para um lado ou para o outro, alterando o comprimento útil
da espiral. Repare no balanço rebitado, incomum para um calibre moderno.





É o regulador que controla o comprimento útil da espiral. Movendo-se o regulador, pode-se fazer pequenos ajustes na marcha do relógio, uma vez que ele altera a freqüência de vibração da espiral. Tanto o porta-piton como o regulador são montados na ponte do balanço. Nem todo relógio, porém, possui regulador. Conforme dito, tanto o comprimento da espiral como o momento de inércia do balanço modificam drasticamente a freqüência e, portanto, a marcha. Na grande maioria dos relógios, a regulagem da marcha é feita alterando-se o comprimento útil da espiral (movendo-se o regulador), porém, em alguns poucos relógios, o balanço é do tipo free-sprung. Esse tipo de balanço é padrão nos Rolex modernos, sendo encontrado também em marcas como Patek Philippe e Chopard. Eles não possuem regulador, e o ajuste da marcha é feito alterando-se o momento de inércia do balanço.



Detalhe do regulador.
“A” é o index e “B” é o booth.


No tipo free-sprung, o balanço possui pequenos pesos que se movem mais para dentro ou mais para fora (como no sistema Microstella da Rolex), ou então pequenos pesos excêntricos que podem ser girados, deslocando sua massa mais para dentro ou mais para fora do aro, alterando o momento do balanço (como no sistema Gyromax da Patek, usado também pela Audemars Piguet, sob licensa). Esse sistema é bastante superior, pois tem a enorme vantagem de não alterar nada na espiral, que é um elemento bem sensível. O regulador, apesar de prático, conforme é movido, altera as características geométricas e o centro de gravidade da espiral, afetando seu ajuste e especialmente seu comportamento posicional. No sistema free-sprung, isso não acontece: como a regulagem da marcha independe da espiral, esta permanece intacta, com seu ajuste original. O resultado é uma precisão maior, mais consistente e mais duradoura. Porém, a regulagem de um escapamento free-sprung é delicada e complicada, exigindo um profissional bastante qualificado para fazê-la, enquanto o sistema normal de regulador é extremamente simples de ser usado.







Rolex calibre 4130. Repare no escapamento free-sprung em conjunto com
uma espiral de Breguet. Note os pesos ajustáveis no balanço (Microstella).






A âncora e a roda de escape




Existe uma geometria complexa entre a roda de escape e a âncora para que o sistema funcione. Os ângulos são projetados de modo a permitir um perfeito encaixe dos rubis da âncora (chamados de “levées”, em francês, ou “pallet”, em inglês) ao bloquear o dente da roda de escape, com o mínimo desperdício de energia. Também permitem um perfeito deslizamento entre a face de impulso do rubi e a face do dente da roda, de modo a produzir um impulso consistente. No escapamento suíço, a roda de escape é do tipo “club-tooth”, que consiste num desenho particular dos dentes da roda de escape, permitindo que a força do impulso seja corretamente dividida entre os dentes e os rubis da âncora, sem que o impulso fique todo a cargo só do dente ou só do rubi. O bom funcionamento depende da qualidade e precisão de fabricação da roda de escape, dos polimentos das superfícies e do ajuste dos rubis da âncora. Isso é fundamental para que a força chegue ao balanço com o mínimo de perda, e de forma consistente. Alguns centésimos de milímetro podem ser a diferença entre um funcionamento perfeito e um defeituoso ou até o não-funcionamento.





O balanço do escapamento de âncora suíço conta com um eixo do tipo “platô duplo”. Há dois platôs: um de impulso, outro de segurança. O primeiro tem um rubi de impulso: é ele que recebe a força da âncora. Já o platô de segurança serve para garantir que a âncora permaneça encostada num dos pinos ou bancos que limitam seu movimento (funcionando como batentes) e não se mova até que o balanço passe por sua posição de repouso, liberando o movimento da âncora e permitindo o desbloqueio de um dente do escape e o imediato impulso. A âncora possui “chifres”: são os chifres que se encaixam no rubi de impulso para transportar a âncora de um lado para o outro e ao mesmo tempo transmitir o impulso. Possui também um “dardo”. Ele é o responsável por se relacionar com o platô de segurança: o platô conta com um encaixe que permite a movimentação da âncora apenas no momento certo, assegurando que ela não se mova até que o balanço esteja na posição correta para liberação e impulso. Um ajuste perfeito dos bancos ou pinos que limitam o movimento da âncora é importante para impedir que haja jogo entre o platô e o dardo, e para que não haja pressão entre eles, para permitir o livre movimento do balanço.





Escapamento de âncora suíço e Co-axial, lado a lado.



Apesar de ter se provado a melhor opção de escapamento para relógios portáteis (pulso e bolso), o escapamento de âncora possui pequenas desvantagens intrínsecas de seu desenho. Ele é muito dependente do atrito entre duas superfícies: o dente da roda de escape e a face de impulso dos rubis da âncora. Essas duas superfícies precisam deslizar entre si para promover impulso, e por isso necessitam de uma lubrificação criteriosa, pois qualquer mudança da quantidade de força que chega ao balanço altera a marcha do relógio. Se a força chega mais fraca, a amplitude do giro do balanço é menor, alterando a distância percorrida e o tempo, mudando o ritmo com que ele oscila. O limite para uma precisão perfeita ao longo do tempo não é do sistema, mas sim dos lubrificantes.





No escapamento de âncora, a lubrificação nesse ponto é complicada e tende a se deteriorar com o passar do tempo. Após uma revisão, boa parte do óleo aplicado nos rubis da âncora se dispersa em questão de semanas. Passado alguns meses, o atrito se estabiliza, mas continua lentamente se degradando ao longo dos anos, com a dispersão dos lubrificantes e o acúmulo de sujeira, reduzindo a força que chega ao balanço. Com pouca amplitude, a marcha se torna instável e imprevisível. Nesse momento é hora de uma revisão. Além disso, há também efeitos imediatos da temperatura e umidade sobre os lubrificantes, que podem afetar momentaneamente o desempenho do escapamento. Lubrificantes especiais já foram desenvolvidos, como óleos com agentes antidispersantes e lubrificantes de consistência especial. Um desses óleos lubrificantes é na verdade uma graxa que se liquefaz somente sob pressão. No momento de contato entre o dente e o rubi, a pressão faz a graxa se liquefazer, agindo como um óleo e voltando ao estado de graxa após o contato. Desse modo, com a consistência de uma graxa, o óleo permanece mais tempo no lugar certo, sem se dispersar. Apesar disso, o problema não é totalmente eliminado.






Este desenho demonstra a complexidade envolvida nos
ângulos entre roda de escape e âncora, fundamentais para o
funcionamento do escapamento.










Repare na maneira como se relacionam os chifres com o rubi de impulso,
assim como o dardo com o platô de segurança.




O ciclo do escapamento de âncora suíço. As setas verdes apontam o sentido de deslocamento das peças, e as setas cinzas apontam os detalhes comentados: 1 – A levée de saída está bloqueando um dente da roda de escape, e o rubi de impulso está prestes a se conectar com os chifres. 2 – O recesso no platô de segurança libera o dardo, liberando a âncora ao mesmo tempo que o rubi de impulso se conecta com os chifres. A levée de saída desbloqueia o dente e inicia o processo de impulso. 3 – O rubi de impulso recebe o impulso da âncora, enquanto o impulso continua a ser dado à levée de saída. 4 – O rubi de impulso está prestes a deixar os chifres, enquanto a levée de entrada está prestes a bloquear o dente da roda de escape. 5 – O rubi de impulso se desengata dos chifres, a âncora corre para o batente e o platô de segurança a mantém no lugar, bloqueando o dardo. Neste momento, o dente da roda de escape está totalmente bloqueado pela levée de entrada. 6 – O balanço, por ação da espiral, inicia seu movimento de volta e está prestes a reiniciar o ciclo descrito, porém no sentido oposto, repetindo todo o processo seguidamente.





O escapamento Co-axial




O escapamento Co-axial é uma invenção do mestre-relojoeiro inglês Dr. George Daniels, e levou muitos anos de dedicação e aperfeiçoamento até atingir o desempenho e a confiabilidade necessários. Recentemente Daniels se uniu à Omega para desenvolver a produção em massa desse escapamento. Trata-se de uma importante evolução do escapamento do relógio e da relojoaria como um todo, provavelmente a maior delas desde algumas décadas, vencendo o desafio de não depender dos limites da lubrificação no escapamento.




O conceito básico do escapamento Co-axial é eliminar exatamente o “calcanhar de Aquiles” do escapamento de âncora convencional: o atrito ocorrido no momento do impulso. Isso se traduz de uma maneira simples: estabilidade da precisão a longo prazo, ou seja, eliminando-se a gradativa deterioração da precisão ocorrida no escapamento de âncora convencional entre uma revisão e outra. O princípio de funcionamento é o mesmo, alternando ciclos de liberação e travamento. Os elementos são semelhantes: possui roda de escape, balanço e âncora, mas o desenho da âncora e da roda de escape é diferenciado, basicamente colocando as funções de bloqueio e impulso em elementos separados. O próprio impulso para cada lado é dado por elementos separados. Assim como o escapamento de âncora convencional, o Co-axial é um escapamento “double-beat”, ou seja, o balanço recebe impulso em ambos os sentidos de seu giro.





O escapamento Co-axial consiste em uma roda intermediária (A), uma roda coaxial (B), composta pelo pinhão de escape (C) e roda de escape (D), a âncora (E) com três rubis (G de impulso, F e H de bloqueio) e um platô do eixo do balanço (K) com um rubi de impulso maior (J) e um rubi de impulso menor (L). O impulso no sentido horário é dado pelo dente da roda de escape (D) diretamente ao balanço, por meio do rubi de impulso maior (J) em seu platô (K). Já o impulso no sentido anti-horário é dado pelo dente do pinhão de escape (C) impulsionando o rubi de impulso da âncora (G). A âncora passa o impulso para o balanço impulsionando o rubi de impulso menor (L) no platô. Após cada impulso, a roda de escape é bloqueada pelos rubis de bloqueio (F e H), completando o ciclo.





A grande vantagem desse desenho é eliminar grandes áreas de atrito. A energia é transmitida tangencialmente por componentes movendo-se radialmente. O dente da roda de escape se apóia na lateral do rubi de impulso, propelindo-o até perder o contato. Por isso, os pontos de contato têm área bastante reduzida e, portanto, com menor atrito, originalmente dispensando o uso de lubrificação. Mesmo assim, a Omega preferiu usar lubrificação nesse ponto, apenas uma fina camada para prevenir desgaste. Dessa forma, o sistema não depende dos limites da lubrificação e a precisão se mantém estável ao longo dos anos sem ser afetada por mudanças de atrito nem deterioração da lubrificação do escapamento.








O escapamento Co-axial é um enorme passo para tornar o relógio mecânico de pulso ainda mais preciso. O desafio agora é produzi-lo em grandes quantidades com a mesma precisão e confiabilidade projetadas por Daniels e, quem sabe, torná-lo padrão.




Omega calibre 2500 Co-axial com balanço free-sprung,
que equipa modelos como o De Ville e o Seamaster Aquaterra.



O ciclo do escapamento Co-axial. 1 – O platô (K) gira no sentido horário para que a levée de entrada (F) desbloqueie um dente (a). 2 – O impulso é dado ao platô (K) no sentido horário pelo dente (b) no rubi de impulso maior (J). 3 – O balanço, por ação da espiral, reverte seu movimento e gira no sentido anti-horário para desbloquear o dente (c) da levée de saída (H). 4 – O impulso é dado ao platô (K) no sentido anti-horário por meio do dente (d) do pinhão de escape (C) e o rubi de impulso da âncora. (G).




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